Os preparativos
1. Concepção
A travessia do litoral
paraibano foi concebida ao longo de outra jornada, realizada em agosto de 2013.
Tratava-se da
“Integral de Sierra Nevada”, na Espanha. Uma trilha muito conhecida, na qual se
atravessa a cordilheira por entre os pontos culminantes da Península Ibérica.
Certa noite, pensando
em como fazer algo remotamente semelhante quando retornasse ao Brasil, cheguei
à conclusão de que o lugar mais aberto a uma autêntica travessia na região onde
vivo era o litoral.
Em primeiro lugar por
ser uma parte do Estado na qual é possível avançar por um extenso terreno que,
a rigor, não pertence a ninguém.
Assim como a
“Integral”, que é realizada no Parque Nacional de Sierra Nevada, uma reserva da
biosfera com mais de 86 mil hectares, a caminhada pelas praias não requeria
permissão de nenhum terratenente.
Por outro lado, se
somos pobres em alturas vertiginosas, uma de nossas riquezas naturais é um belíssimo
litoral invejado noutros lugares do mundo, e porque não dizer, do Brasil, com
trechos de praias semi-desertas que mereciam uma exploração.
Além disso, motivou-me
a leitura de uma reportagem na internet que mencionava a extensão de apenas 130
quilômetros (já tive acesso a fontes que falam de 138 quilômetros e outras que afirmam
que a linha litorânea não supera os 117 quilômetros) da costa paraibana.
Pensei que uma
distância destas não era páreo para um trilheiro sério. A própria “Integral”
superava os 50 quilômetros. Além disso, em junho de 2013 eu havia viajado à
Suíça onde perfizera um total de mais de 80 quilômetros de caminhada em 4 dias,
enfrentando desníveis significativos. A jornada, portanto, ao menos quanto à
extensão, era factível.
Finalmente, depois de
“cozinhar” todos estes fatores na minha mente, me veio o lampejo de que, embora
sendo paraibano da gema, eu não conhecia mais que 20 % do litoral do meu próprio
Estado. E isto me pareceu vergonhoso. Numa época de mudanças tão aceleradas e
de especulação imobiliária tão selvagem se eu quisesse conhecê-lo em estado
bruto ou o mais próximo disso possível, a hora era esta.
Concebi, assim, uma
travessia que deveria ser iniciada na fronteira com Pernambuco e concluída na
fronteira com o Rio Grande do Norte.
Para ser preciso,
teria como ponto de partida o vilarejo de Pontinhas, às margens do Rio
Traçunhaém, sendo concluída na vila de Sagi, a primeira comunidade do Rio
Grande do Norte. Jornada que deveria ser realizada de uma só vez, a pé e pela
praia, sempre que possível.
Estas não eram regras
inflexíveis, pois, como se verá, nem sempre foi possível permanecer na praia ao
longo da caminhada. As diretrizes, no entanto, estavam lançadas.
2. Sozinho ou
acompanhado?
Não nego que o tema da
segurança ocupou um lugar de destaque no meu planejamento. Estar sozinho num
terreno desconhecido pode ser perigoso, sobretudo quando se vai com uma
indumentária que claramente lhe denuncia como um forasteiro.
A travessia, no
entanto, se tratava de um exercício de destemor. Mantive uma postura positiva,
tentando me impor ante o desconhecido ao invés de me encolher. Acredito na
capacidade que um ser humano tem de projetar energia sobre os demais. Se minha
escolha fosse a covardia não poderia dar o primeiro passo para fora de casa.
Minha opinião, ademais,
sempre foi a de que exceto, pelos cuidados essenciais que cada um deve ter para
não se meter em encrencas, quaisquer eventuais encontros com criminosos seriam
uma questão de puro azar.
Apesar da maioria das
pessoas ter verdadeiro pavor do isolamento nos dias atuais, o litoral paraibano,
por mais deserto que fosse em alguns trechos, não me parecia, em termos de
probabilidade, o lugar mais propício para encontrar criminosos de alta
periculosidade.
Por outro lado, uma
caminhada solitária soava como um fortalecimento de disciplina mental. Uma boa
oportunidade para sair da zona de conforto e forçar-se a cumprir uma meta.
Embora eu seja muito
desconfiado, tenho para mim que a maioria das pessoas é boa e está disposta a ajudar.
Sobretudo se identifica o sujeito como um viajante. Como diz um amigo
trilheiro, a mochila nas costas desperta, na maioria dos casos, o melhor nas
pessoas.
No final das contas, ao
menos uma decisão foi condicionada pelo tema da segurança: a de em hipótese
alguma levar uma mulher comigo caso não conseguisse montar um grupo superior a,
no mínimo, quatro pessoas, sendo pelo menos três delas homens. Isto porque a
vantagem de passar despercebido caminhando sozinho poderia se esfumar caso
estivesse acompanhado de uma mulher.
Nada contra o gênero
feminino ou a capacidade física de qualquer mulher para perfazer o mesmo
roteiro. No entanto, os casos mais variados de emboscadas seguidos de estupros
e homicídios de que foram vítimas pessoas que decidiram um contato mais íntimo
com a natureza em vários lugares do território brasileiro me fizeram ser
bastante rígido quanto a não levar mãe, irmã, esposa ou amiga comigo.
Decidi, ao invés,
convidar meu irmão para me acompanhar. A sua companhia pareceu-me perfeita. Uma
pessoa de mente aberta, com a qual tenho plena empatia e que manifestou muita
disposição para encarar o desafio.
Em todo caso, a opção
de ir acompanhado deve sempre ter como pressuposto, em situações como essa, as condições físicas do
acompanhante e também a confiança que se pode depositar nele ou nela. Deve-se ter
certeza de que o companheiro de viagem está em perfeito estado de saúde, e,
sobretudo, de que seja uma pessoa descomplicada e à altura do grau de
simplicidade e rusticidade que tal jornada suscita.
Estas são
recomendações necessárias, pois uma travessia litorânea pode soar como um
passeio na praia, mas não é. Ao contrário de aventuras na Europa, não há uma
estrutura montada para um projeto como esse. Não existe seguro para tal
empreitada. Nem todos os trechos são habitados, e muitos sequer têm sinal de celular
ou fácil acesso para um automóvel. Não há grupos de apoio ou resgate engatilhado
em casos de imprevistos, lesões ou
quaisquer outros problemas de saúde.
O trilheiro avança sozinho a despeito do
que possa acontecer. É importante, portanto, que o companheiro de viagem esteja
apto a enfrentar o que se coloca pela frente.
Para todos os efeitos,
cabe nunca esquecer a velha máxima: “antes só que mal acompanhado.”
3. A data e a organização
da mochila
A rigor, o litoral
paraibano pode ser percorrido em qualquer época do ano. Não temos, por estas
bandas, variações térmicas tão significativas a ponto de inviabilizar uma
travessia como a planejada. Isto sim, as chuvas podem ser muito incômodas no
período invernal e também conferem uma qualidade diferente à paisagem.
Para mim, o intervalo
entre o natal e o ano novo parecia o mais adequado por preceder a época de
veraneio. Achei que neste período não encontraríamos as praias com movimentação
excessiva.
Em razão dos
compromissos familiares de fim de ano, no entanto, decidimos deixar o começo da
travessia para o início do mês de janeiro. Precisamente no dia 2.
Como a idéia original
era a de uma jornada sem interrupções, a mochila tinha que ser grande o
suficiente para carregar provisões para mais de cinco dias. Escolhi uma Big
Wall Missile de 65 litros, com a qual já fora ao Parque Provincial Aconcágua e
já realizara a “Integral de Sierra Nevada”. Em ambos os casos, excursões que
superavam os três dias de duração.
Uma primeira preocupação
na delimitação dos itens que seriam levados, tinha a ver com a quantidade de água
que deveríamos carregar ao longo da caminhada. A praia é tão árida quanto um
deserto. Além disso, não era possível calcular com exatidão onde pararíamos
para dormir e com que rapidez avançaríamos ao longo dos trechos mais isolados do
litoral.
Cabia, portanto,
estimar a medida certa de água que, ao tempo em que servisse para nos saciar ao
longo da viagem, não representasse um peso excessivo.
Por uma questão de
economia, a água só seria utilizada para cozinhar e matar a sede. Para higiene
pessoal, quando não tivéssemos acesso a reservas naturais de água doce ou à
água corrente, recorreríamos a lenços umedecidos e a álcool em gel.
A fim de não parar a
todo instante em que tivesse sede, decidi adaptar a mochila de hidratação de 2
litros por dentro da Big Wall. E no fundo desta, abrigava uma garrafa de 1,5
litros, caso fosse necessário recorrer a uma reserva extra.
Achei que por mais que
passasse por praias desertas, não ficaria tempo suficiente longe de locais
habitados a ponto de consumir toda esta quantidade de água e ainda sofrer com a
sede de forma insuportável. Para mim, especialmente, que tomo pouca água ao
longo das trilhas, os 3,5 litros constantemente à disposição pareciam o
suficiente.
4. Acampar ou
bivacar?
Eis uma questão
relevante, pois dela dependia o acréscimo de alguns quilos não desejados à
mochila.
Ao longo da “Integral
de Sierra Nevada” abdiquei da barraca, dormindo ao relento no saco de dormir.
Foi uma decisão ousada, porém, tomada com base em conselhos de amigos que já
haviam feito tal excursão e que me disseram que, apesar da queda brusca de
temperatura na alta montanha durante a noite, no verão, o saco de dormir era
suficiente caso o local de repouso tivesse algum tipo de proteção mínima contra
o vento e a chuva.
No caso da travessia
litorânea eu não contava com os conselhos de alguém que já tivesse feito o
mesmo roteiro. Por mais que tenha procurado na internet, não encontrei o relato
de nenhum trilheiro que tivesse encarado, superado e compartilhado a
experiência.
Em pleno verão, a
possibilidade de bivacar parecia tentadora. Aberto a ela e sem querer pecar pelo
excesso de confiança, cometi um primeiro erro que se limitou ao trecho do
litoral sul, que consistiu em levar o saco de dormir, uma esteira e também a
barraca. O peso sobre minhas costas foi severo e desnecessário, pois como eu
perceberia já na primeira noite, a temperatura era suficientemente alta para
que o saco de dormir fosse dispensável estando a barraca montada.
Sem dúvida, a tenda proporciona
privacidade e abrigo, enquanto o bivaque, por seu turno, garante flexibilidade
e rapidez. Na segunda etapa da viagem deixei o saco de dormir para trás e levei
somente a barraca. Embora fosse mais pesada, satisfazia meu capricho de
recolher meus pertences durante a noite e de ficar abrigado das eventuais
pancadas de chuva ao longo da madrugada.
5. Pousada,
camping ou acampamento no meio do nada?
O alojamento em
pousadas estava fora de cogitação. A hospedagem em tais locais, após todo um
dia de caminhada, superando os mais distintos obstáculos, violentava a
filosofia da jornada, além de encarecer o que havia sido pensado como um passeio
de baixíssimo custo. Afinal de contas, se
era para ter todo conforto não tinha sentido andar atado a uma mochila cheia de
provisões para vários dias.
A opção escolhida
sempre foi a de se recolher em campo aberto, bivacando ou acampando. Partindo
desta premissa impunha-se a questão: um eventual acampamento seria montado em
zonas habitadas ou nos trechos desertos do litoral?
Muita gente me
alertava sobre o perigo da delinqüência em locais isolados. Projetavam
situações nas quais eu me deparava com facínoras dispostos a fazer o mal por
puro prazer, não só roubando todos os meus pertences, como também investindo
contra minha integridade física.
Levei em consideração
todos os alertas. Porém, conforme já frisei, sempre entendi que os locais mais
perigosos eram justamente aqueles onde houvesse maior aglomeração de pessoas.
Ou seja, fora do perímetro urbano de lugares como João Pessoa, Jacumã, Lucena
ou Baía da Traição, quando adentrasse trechos semi-desertos, a possibilidade de
encontrar algum criminoso reduzir-se-iam a zero. Afinal, sejamos sensatos, que
facínora há de esperar um andarilho sujo, no meio da noite, para roubar-lhe os
pertences?
A desvantagem de
acampar na solidão absoluta, a meu ver, estava no consumo de água sem
reposição, forçando eventualmente a interrupção da caminhada ao longo do dia e
a entrada em algum lugarejo para o reabastecimento.
Por outro lado, as
opções de camping que pude encontrar na internet resumiam-se a três: Tambaba, Tabatinga
e Ponta do Seixas. Estas alternativas, na prática, reduziam-se a duas, pois se
encontravam aglomeradas no litoral sul, que pode ser percorrido em dois dias de
caminhada forçada.
Quem acampa em
Tambaba, por exemplo, não tem porque interromper o avanço antes de chegar em
João Pessoa, alojando-se, finalmente, em Ponta do Seixas. No mais, ao menos na
internet, não havia qualquer referência à zonas de camping no litoral norte.
Não sendo as pousadas
uma opção, a decisão tomada foi a de recorrer ao camping sempre que houvesse
esta possibilidade.
6.
A
indumentária e outros acessórios
Este é um ponto
importante.
Para a caminhada usei
um tradicional chapéu de couro de abas largas, bastante eficaz na proteção
contra o sol, roupa leve (camisas de mangas curtas e bermudas de compressão),
óculos escuros e botas.
O calçado,
especialmente, deve ser considerado com sumo cuidado. Não pretendo generalizar,
mas no meu caso, as botas Timberland surradas que utilizo há anos foram as que
me fizeram avançar com o máximo de conforto possível ao longo do litoral norte.
Caminhar descalço
potencializa o surgimento de bolhas dada a aspereza da areia da praia aliada à
extensão da jornada diária. Trocando em miúdos, uma coisa é um dia na praia,
com caminhadas intermitentes que não superem os 5 km, que é o que muita gente
faz ao se exercitar na beira-mar. Outra coisa bastante distinta é caminhar 20 a
30 km em média diariamente (ou em alguns casos 40 km), pisando a areia repetidamente
sem qualquer proteção para os pés.
O calçado, seja ele
qual for, deve ser usado com meias grossas para minimizar o aparecimento das
famigeradas bolhas. Além disso, sempre que for necessário atravessar um rio ou
um curso d´água mais extenso, recomendo descalçar-se para não molhar botas ou
meias, e recolocá-las em seguida. Todo cuidado é pouco contra as bolhas, que
podem inviabilizar a viagem.
Utilizei protetor
solar fator 50. Sou muito indisciplinado para me resguardar do sol, mas me
lambuzava religiosamente todas as manhãs e ao longo da caminhada.
No mais, apesar de ter
uma Canon reflex 1100D muito boa, com um kit de lentes muito legal, preferi
levar uma Nikon S9100 compacta, que me possibilitava fotografar com muita
rapidez e não estorvava em razão do peso.
7. O roteiro
Deixei para pensar
neste tema pouco antes de iniciar a travessia.
Tenho parentes em João
Pessoa e em Ponta de Lucena, logo, estes eram pontos de apoio fixos ao longo da
jornada. Tratava-se de adaptar o restante da rota a estas duas paradas.
Pareceu-me razoável,
saindo de Pontinhas, alcançar Tambaba já no primeiro dia. No seguinte, não
havia outra opção que não a de avançar até João Pessoa, pois entre Tambaba e a
Capital, as praias eram muito procuradas por veranistas e turistas, e, próximas
a zonas urbanas muito movimentadas, não me pareciam seguras para o acampamento.
O melhor, portanto, era encarar um longo caminho que superava em muito os
trinta quilômetros e descansar com a família.
Já no ataque ao
litoral norte, o primeiro trecho seria João Pessoa - Ponta de Lucena, onde também
residiam parentes meus. Passaríamos pelas praias urbanas infestadas de
veranistas indo para a última etapa de conforto familiar.
A partir daí o
planejamento se perdia na incerteza, pois entre Lucena e Baía da Traição havia
o imponente Rio Mamanguape, cuja travessia para mim era uma incógnita. Além
disso, não consegui chegar a uma conclusão sobre a possibilidade de cobrir toda
a distância até Barra de Camaratuba num único dia.
O que me parecia certo
era sugerir que o ponto final da jornada fosse a cidade de Baía Formosa, comunidade
que inicialmente considerei ser a primeira do Rio Grande do Norte.
Posteriormente verifiquei que Sagi ocupava este posto e que deveria ser,
finalmente, o ponto de chegada. Com esta perspectiva, estimei que a viagem
inteira, contando com imprevistos, deveria durar entre cinco e dez dias.
a)
Para
dormir:
·
Saco de
dormir (apenas ao longo do litoral sul);
·
Esteira
inflável Nexxt Performance Air Rest MOM 25;
b)
Comida,
bebida e equipamento de cozinha:
·
Caneca de
aço inoxidável
·
Uma
caçarola para camping da marca Optimus
·
Metade de
uma esponja de lavar prato e um pouco de detergente
·
Um
cartucho de gás Nautika (70% de Isobutano e 30% de Propano)
·
Um
fogareiro Primus
·
Uma
garrafa de 1,5 l de água
·
Um kit de
talheres para camping
·
Mochila de
hidratação de 2 litros
c)
Comida:
duas laranjas, três maçãs, duas peras, um saco de granola, um pacote de
rapadura, oito sachês de capuccino, oito barras de cereal, oito pães franceses,
três latas de atum, cinco pacotes de sopa instantânea de legumes e verduras
d)
Kit de primeiros-socorros:
band aid, algodão, esparadrapo, água oxigenada (100 ml), gaze, hipoglós,
Ibuprofeno e termômetro
e)
Kit de
higiene pessoal: escova de dente, pasta de dentes, um sabonete, um pacote de
lenços de papel, desodorante, álcool gel antibacteriano, enxaguante bucal,
lenços umedecidos para bebê.
f)
Roupa:
três bermudas, três blusas leves, três cuecas, dois pares de meias, uma toalha
pequena, e uma capa de plástico contra a chuva
g)
Identificação:
carteira de identidade e cartão de plano de saúde
h)
Eletrônicos:
telefone celular e recarregador, câmera fotográfica e recarregador
i)
Acessórios
em geral: protetor solar de 200 ml, um facão, quatro pilhas AA, duas lanternas,
um canivete suíço, uma ferramenta multifuncional (martelo, alicate, machadinha,
canivete entre outras funções), uma bússola, uma pederneira, um mapa da
Paraíba;
j)
Uma
sandália
k)
Barraca
para duas pessoas
l)
Um rolo de
papel higiênico
m)
Dois sacos
plásticos para lixo
Cara, isso muito me agrada... Gosto desses tipos de aventura!
ResponderExcluirMeus parabéns...