segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

De enseada em enseada: a tavessia do litoral paraibano (I)


Os preparativos

 
  
1. Concepção 

A travessia do litoral paraibano foi concebida ao longo de outra jornada, realizada em agosto de 2013.
Tratava-se da “Integral de Sierra Nevada”, na Espanha. Uma trilha muito conhecida, na qual se atravessa a cordilheira por entre os pontos culminantes da Península Ibérica.
Certa noite, pensando em como fazer algo remotamente semelhante quando retornasse ao Brasil, cheguei à conclusão de que o lugar mais aberto a uma autêntica travessia na região onde vivo era o litoral.
Em primeiro lugar por ser uma parte do Estado na qual é possível avançar por um extenso terreno que, a rigor, não pertence a ninguém.
Assim como a “Integral”, que é realizada no Parque Nacional de Sierra Nevada, uma reserva da biosfera com mais de 86 mil hectares, a caminhada pelas praias não requeria permissão de nenhum terratenente.
Por outro lado, se somos pobres em alturas vertiginosas, uma de nossas riquezas naturais é um belíssimo litoral invejado noutros lugares do mundo, e porque não dizer, do Brasil, com trechos de praias semi-desertas que mereciam uma exploração.
Além disso, motivou-me a leitura de uma reportagem na internet que mencionava a extensão de apenas 130 quilômetros (já tive acesso a fontes que falam de 138 quilômetros e outras que afirmam que a linha litorânea não supera os 117 quilômetros) da costa paraibana.
Pensei que uma distância destas não era páreo para um trilheiro sério. A própria “Integral” superava os 50 quilômetros. Além disso, em junho de 2013 eu havia viajado à Suíça onde perfizera um total de mais de 80 quilômetros de caminhada em 4 dias, enfrentando desníveis significativos. A jornada, portanto, ao menos quanto à extensão, era factível.
Finalmente, depois de “cozinhar” todos estes fatores na minha mente, me veio o lampejo de que, embora sendo paraibano da gema, eu não conhecia mais que 20 % do litoral do meu próprio Estado. E isto me pareceu vergonhoso. Numa época de mudanças tão aceleradas e de especulação imobiliária tão selvagem se eu quisesse conhecê-lo em estado bruto ou o mais próximo disso possível, a hora era esta.
Concebi, assim, uma travessia que deveria ser iniciada na fronteira com Pernambuco e concluída na fronteira com o Rio Grande do Norte.
Para ser preciso, teria como ponto de partida o vilarejo de Pontinhas, às margens do Rio Traçunhaém, sendo concluída na vila de Sagi, a primeira comunidade do Rio Grande do Norte. Jornada que deveria ser realizada de uma só vez, a pé e pela praia, sempre que possível.
Estas não eram regras inflexíveis, pois, como se verá, nem sempre foi possível permanecer na praia ao longo da caminhada. As diretrizes, no entanto, estavam lançadas.

      2. Sozinho ou acompanhado?

Não nego que o tema da segurança ocupou um lugar de destaque no meu planejamento. Estar sozinho num terreno desconhecido pode ser perigoso, sobretudo quando se vai com uma indumentária que claramente lhe denuncia como um forasteiro.
A travessia, no entanto, se tratava de um exercício de destemor. Mantive uma postura positiva, tentando me impor ante o desconhecido ao invés de me encolher. Acredito na capacidade que um ser humano tem de projetar energia sobre os demais. Se minha escolha fosse a covardia não poderia dar o primeiro passo para fora de casa.
Minha opinião, ademais, sempre foi a de que exceto, pelos cuidados essenciais que cada um deve ter para não se meter em encrencas, quaisquer eventuais encontros com criminosos seriam uma questão de puro azar.
Apesar da maioria das pessoas ter verdadeiro pavor do isolamento nos dias atuais, o litoral paraibano, por mais deserto que fosse em alguns trechos, não me parecia, em termos de probabilidade, o lugar mais propício para encontrar criminosos de alta periculosidade.  
Por outro lado, uma caminhada solitária soava como um fortalecimento de disciplina mental. Uma boa oportunidade para sair da zona de conforto e forçar-se a cumprir uma meta.
Embora eu seja muito desconfiado, tenho para mim que a maioria das pessoas é boa e está disposta a ajudar. Sobretudo se identifica o sujeito como um viajante. Como diz um amigo trilheiro, a mochila nas costas desperta, na maioria dos casos, o melhor nas pessoas.
No final das contas, ao menos uma decisão foi condicionada pelo tema da segurança: a de em hipótese alguma levar uma mulher comigo caso não conseguisse montar um grupo superior a, no mínimo, quatro pessoas, sendo pelo menos três delas homens. Isto porque a vantagem de passar despercebido caminhando sozinho poderia se esfumar caso estivesse acompanhado de uma mulher.
Nada contra o gênero feminino ou a capacidade física de qualquer mulher para perfazer o mesmo roteiro. No entanto, os casos mais variados de emboscadas seguidos de estupros e homicídios de que foram vítimas pessoas que decidiram um contato mais íntimo com a natureza em vários lugares do território brasileiro me fizeram ser bastante rígido quanto a não levar mãe, irmã, esposa ou amiga comigo.
Decidi, ao invés, convidar meu irmão para me acompanhar. A sua companhia pareceu-me perfeita. Uma pessoa de mente aberta, com a qual tenho plena empatia e que manifestou muita disposição para encarar o desafio.
Em todo caso, a opção de ir acompanhado deve sempre ter como pressuposto, em situações  como essa, as condições físicas do acompanhante e também a confiança que se pode depositar nele ou nela. Deve-se ter certeza de que o companheiro de viagem está em perfeito estado de saúde, e, sobretudo, de que seja uma pessoa descomplicada e à altura do grau de simplicidade e rusticidade que tal jornada suscita.
Estas são recomendações necessárias, pois uma travessia litorânea pode soar como um passeio na praia, mas não é. Ao contrário de aventuras na Europa, não há uma estrutura montada para um projeto como esse. Não existe seguro para tal empreitada. Nem todos os trechos são habitados, e muitos sequer têm sinal de celular ou fácil acesso para um automóvel. Não há grupos de apoio ou resgate engatilhado em casos de imprevistos, lesões  ou quaisquer outros problemas de saúde. 
O trilheiro avança sozinho a despeito do que possa acontecer. É importante, portanto, que o companheiro de viagem esteja apto a enfrentar o que se coloca pela frente.
Para todos os efeitos, cabe nunca esquecer a velha máxima: “antes só que mal acompanhado.”
    
      3. A data e a organização da mochila

A rigor, o litoral paraibano pode ser percorrido em qualquer época do ano. Não temos, por estas bandas, variações térmicas tão significativas a ponto de inviabilizar uma travessia como a planejada. Isto sim, as chuvas podem ser muito incômodas no período invernal e também conferem uma qualidade diferente à paisagem.
Para mim, o intervalo entre o natal e o ano novo parecia o mais adequado por preceder a época de veraneio. Achei que neste período não encontraríamos as praias com movimentação excessiva.
Em razão dos compromissos familiares de fim de ano, no entanto, decidimos deixar o começo da travessia para o início do mês de janeiro. Precisamente no dia 2.
Como a idéia original era a de uma jornada sem interrupções, a mochila tinha que ser grande o suficiente para carregar provisões para mais de cinco dias. Escolhi uma Big Wall Missile de 65 litros, com a qual já fora ao Parque Provincial Aconcágua e já realizara a “Integral de Sierra Nevada”. Em ambos os casos, excursões que superavam os três dias de duração.
Uma primeira preocupação na delimitação dos itens que seriam levados, tinha a ver com a quantidade de água que deveríamos carregar ao longo da caminhada. A praia é tão árida quanto um deserto. Além disso, não era possível calcular com exatidão onde pararíamos para dormir e com que rapidez avançaríamos ao longo dos trechos mais isolados do litoral.
Cabia, portanto, estimar a medida certa de água que, ao tempo em que servisse para nos saciar ao longo da viagem, não representasse um peso excessivo.
Por uma questão de economia, a água só seria utilizada para cozinhar e matar a sede. Para higiene pessoal, quando não tivéssemos acesso a reservas naturais de água doce ou à água corrente, recorreríamos a lenços umedecidos e a álcool em gel.
A fim de não parar a todo instante em que tivesse sede, decidi adaptar a mochila de hidratação de 2 litros por dentro da Big Wall. E no fundo desta, abrigava uma garrafa de 1,5 litros, caso fosse necessário recorrer a uma reserva extra.
Achei que por mais que passasse por praias desertas, não ficaria tempo suficiente longe de locais habitados a ponto de consumir toda esta quantidade de água e ainda sofrer com a sede de forma insuportável. Para mim, especialmente, que tomo pouca água ao longo das trilhas, os 3,5 litros constantemente à disposição pareciam o suficiente.

      4. Acampar ou bivacar?

Eis uma questão relevante, pois dela dependia o acréscimo de alguns quilos não desejados à mochila.
Ao longo da “Integral de Sierra Nevada” abdiquei da barraca, dormindo ao relento no saco de dormir. Foi uma decisão ousada, porém, tomada com base em conselhos de amigos que já haviam feito tal excursão e que me disseram que, apesar da queda brusca de temperatura na alta montanha durante a noite, no verão, o saco de dormir era suficiente caso o local de repouso tivesse algum tipo de proteção mínima contra o vento e a chuva.
No caso da travessia litorânea eu não contava com os conselhos de alguém que já tivesse feito o mesmo roteiro. Por mais que tenha procurado na internet, não encontrei o relato de nenhum trilheiro que tivesse encarado, superado e compartilhado a experiência.
Em pleno verão, a possibilidade de bivacar parecia tentadora. Aberto a ela e sem querer pecar pelo excesso de confiança, cometi um primeiro erro que se limitou ao trecho do litoral sul, que consistiu em levar o saco de dormir, uma esteira e também a barraca. O peso sobre minhas costas foi severo e desnecessário, pois como eu perceberia já na primeira noite, a temperatura era suficientemente alta para que o saco de dormir fosse dispensável estando a barraca montada.
Sem dúvida, a tenda proporciona privacidade e abrigo, enquanto o bivaque, por seu turno, garante flexibilidade e rapidez. Na segunda etapa da viagem deixei o saco de dormir para trás e levei somente a barraca. Embora fosse mais pesada, satisfazia meu capricho de recolher meus pertences durante a noite e de ficar abrigado das eventuais pancadas de chuva ao longo da madrugada.

      5. Pousada, camping ou acampamento no meio do nada?

O alojamento em pousadas estava fora de cogitação. A hospedagem em tais locais, após todo um dia de caminhada, superando os mais distintos obstáculos, violentava a filosofia da jornada, além de encarecer o que havia sido pensado como um passeio de baixíssimo custo.  Afinal de contas, se era para ter todo conforto não tinha sentido andar atado a uma mochila cheia de provisões para vários dias.
A opção escolhida sempre foi a de se recolher em campo aberto, bivacando ou acampando. Partindo desta premissa impunha-se a questão: um eventual acampamento seria montado em zonas habitadas ou nos trechos desertos do litoral?
Muita gente me alertava sobre o perigo da delinqüência em locais isolados. Projetavam situações nas quais eu me deparava com facínoras dispostos a fazer o mal por puro prazer, não só roubando todos os meus pertences, como também investindo contra minha integridade física.
Levei em consideração todos os alertas. Porém, conforme já frisei, sempre entendi que os locais mais perigosos eram justamente aqueles onde houvesse maior aglomeração de pessoas. Ou seja, fora do perímetro urbano de lugares como João Pessoa, Jacumã, Lucena ou Baía da Traição, quando adentrasse trechos semi-desertos, a possibilidade de encontrar algum criminoso reduzir-se-iam a zero. Afinal, sejamos sensatos, que facínora há de esperar um andarilho sujo, no meio da noite, para roubar-lhe os pertences?
A desvantagem de acampar na solidão absoluta, a meu ver, estava no consumo de água sem reposição, forçando eventualmente a interrupção da caminhada ao longo do dia e a entrada em algum lugarejo para o reabastecimento.
Por outro lado, as opções de camping que pude encontrar na internet resumiam-se a três: Tambaba, Tabatinga e Ponta do Seixas. Estas alternativas, na prática, reduziam-se a duas, pois se encontravam aglomeradas no litoral sul, que pode ser percorrido em dois dias de caminhada forçada.
Quem acampa em Tambaba, por exemplo, não tem porque interromper o avanço antes de chegar em João Pessoa, alojando-se, finalmente, em Ponta do Seixas. No mais, ao menos na internet, não havia qualquer referência à zonas de camping no litoral norte.
Não sendo as pousadas uma opção, a decisão tomada foi a de recorrer ao camping sempre que houvesse esta possibilidade.
  
6.   A indumentária e outros acessórios

Este é um ponto importante.
Para a caminhada usei um tradicional chapéu de couro de abas largas, bastante eficaz na proteção contra o sol, roupa leve (camisas de mangas curtas e bermudas de compressão), óculos escuros e botas.
O calçado, especialmente, deve ser considerado com sumo cuidado. Não pretendo generalizar, mas no meu caso, as botas Timberland surradas que utilizo há anos foram as que me fizeram avançar com o máximo de conforto possível ao longo do litoral norte.
Caminhar descalço potencializa o surgimento de bolhas dada a aspereza da areia da praia aliada à extensão da jornada diária. Trocando em miúdos, uma coisa é um dia na praia, com caminhadas intermitentes que não superem os 5 km, que é o que muita gente faz ao se exercitar na beira-mar. Outra coisa bastante distinta é caminhar 20 a 30 km em média diariamente (ou em alguns casos 40 km), pisando a areia repetidamente sem qualquer proteção para os pés.
O calçado, seja ele qual for, deve ser usado com meias grossas para minimizar o aparecimento das famigeradas bolhas. Além disso, sempre que for necessário atravessar um rio ou um curso d´água mais extenso, recomendo descalçar-se para não molhar botas ou meias, e recolocá-las em seguida. Todo cuidado é pouco contra as bolhas, que podem inviabilizar a viagem.
Utilizei protetor solar fator 50. Sou muito indisciplinado para me resguardar do sol, mas me lambuzava religiosamente todas as manhãs e ao longo da caminhada.
No mais, apesar de ter uma Canon reflex 1100D muito boa, com um kit de lentes muito legal, preferi levar uma Nikon S9100 compacta, que me possibilitava fotografar com muita rapidez e não estorvava em razão do peso.

      7. O roteiro

Deixei para pensar neste tema pouco antes de iniciar a travessia.
Tenho parentes em João Pessoa e em Ponta de Lucena, logo, estes eram pontos de apoio fixos ao longo da jornada. Tratava-se de adaptar o restante da rota a estas duas paradas.
Pareceu-me razoável, saindo de Pontinhas, alcançar Tambaba já no primeiro dia. No seguinte, não havia outra opção que não a de avançar até João Pessoa, pois entre Tambaba e a Capital, as praias eram muito procuradas por veranistas e turistas, e, próximas a zonas urbanas muito movimentadas, não me pareciam seguras para o acampamento. O melhor, portanto, era encarar um longo caminho que superava em muito os trinta quilômetros e descansar com a família.
Já no ataque ao litoral norte, o primeiro trecho seria João Pessoa - Ponta de Lucena, onde também residiam parentes meus. Passaríamos pelas praias urbanas infestadas de veranistas indo para a última etapa de conforto familiar.
A partir daí o planejamento se perdia na incerteza, pois entre Lucena e Baía da Traição havia o imponente Rio Mamanguape, cuja travessia para mim era uma incógnita. Além disso, não consegui chegar a uma conclusão sobre a possibilidade de cobrir toda a distância até Barra de Camaratuba num único dia.
O que me parecia certo era sugerir que o ponto final da jornada fosse a cidade de Baía Formosa, comunidade que inicialmente considerei ser a primeira do Rio Grande do Norte. Posteriormente verifiquei que Sagi ocupava este posto e que deveria ser, finalmente, o ponto de chegada. Com esta perspectiva, estimei que a viagem inteira, contando com imprevistos, deveria durar entre cinco e dez dias.

8. O que levei na mochila?

a)      Para dormir:
·         Saco de dormir (apenas ao longo do litoral sul);
·         Esteira inflável Nexxt Performance Air Rest MOM 25;
b)      Comida, bebida e equipamento de cozinha:
·         Caneca de aço inoxidável
·         Uma caçarola para camping da marca Optimus
·         Metade de uma esponja de lavar prato e um pouco de detergente
·         Um cartucho de gás Nautika (70% de Isobutano e 30% de Propano)
·         Um fogareiro Primus
·         Uma garrafa de 1,5 l de água
·         Um kit de talheres para camping
·         Mochila de hidratação de 2 litros
c)       Comida: duas laranjas, três maçãs, duas peras, um saco de granola, um pacote de rapadura, oito sachês de capuccino, oito barras de cereal, oito pães franceses, três latas de atum, cinco pacotes de sopa instantânea de legumes e verduras
d)      Kit de primeiros-socorros: band aid, algodão, esparadrapo, água oxigenada (100 ml), gaze, hipoglós, Ibuprofeno e termômetro
e)      Kit de higiene pessoal: escova de dente, pasta de dentes, um sabonete, um pacote de lenços de papel, desodorante, álcool gel antibacteriano, enxaguante bucal, lenços umedecidos para bebê.
f)       Roupa: três bermudas, três blusas leves, três cuecas, dois pares de meias, uma toalha pequena, e uma capa de plástico contra a chuva
g)      Identificação: carteira de identidade e cartão de plano de saúde
h)      Eletrônicos: telefone celular e recarregador, câmera fotográfica e recarregador
i)        Acessórios em geral: protetor solar de 200 ml, um facão, quatro pilhas AA, duas lanternas, um canivete suíço, uma ferramenta multifuncional (martelo, alicate, machadinha, canivete entre outras funções), uma bússola, uma pederneira, um mapa da Paraíba;
j)        Uma sandália
k)      Barraca para duas pessoas
l)        Um rolo de papel higiênico
m)    Dois sacos plásticos para lixo